Kidoairaku
As pessoas comentam sabores de infância e memória afetiva, mas no nirvana inexplicável que pode acontecer quando um pedaço de hortaliça perfeitamente cozida atinge o final da boca, o rumo da memória se perde (ao contrário do Senhor Malvado-que-virou-bonzinho do desenho Ratatouille) e o impraticável pela pobre língua portuguesa se realiza absoluto na língua fisiológica - independente de bairrismos. Chamemos isso de PONTO.Tudo tem um ponto: um legume, uma carne, um macarrão; também, um chef tem seu ponto, uma casa, uma frase. No Kidoairaku, existe um ponto a ser entendido, antes que as coisas fiquem pretas (leia-se deliciosas). O ponto é que não se deve esperar dele esta versão ultrajada e inescrupulosamente falsa de sushirante sashimês com sobrenome até para o sakê. Quando o garçom, sobrinho do chef (que obviamente ainda não tem um primogênito adulto suficiente para lhe assessorar - guardando o que se perdeu na maioria dos lugares, a tradição), lava a garrafinha da sua água com gás na pia do bar, equivale ao puxar de cadeiras para que a madame aposente seu bumbum nas casas que lhe cobram por isso - em muitas delas, principalmente por isso. E que ponto há em contratar uma equipe com subcurso de hotelaria que aprendeu a dobrar um guardanapo de algodão egípcio nos métodos russos mas está mais preocupada em lhe oferecer com segurança uma garrafa de Krug Grand Cuvée a prestar algum serviço? É a mesma equipe que volta pra casa lembrando que seu nome é R$430,00 + 10% (quando não 12%). Luciana, a mulher do chef, também responsável pelo serviço carinhoso, não volta pra casa, porque mora ali... no andar de cima. E quando você volta e pede o Karasumi de entrada, ela olha com satisfação, sabendo que lhe agradou da vez passada.
Depois de se despojar (de etimologia em "despir-se") da afetação breguíssima de vincular "jantar fora" a "talheres de prata", é necessária uma única outra ciência: entender que sauce bordallaise se come no Alain Ducasse. Aqui, trufas e foie gras têm seu equivalente no Natto e Pregonomissozukeyaki, respectivamente. O primeiro, uma pasta de soja fermentada que inebria os sentidos (e, assim como a trufa, requer intimidade com a potência). O segundo, um belo filé de peixe que se assemelha ao foie tanto no teor de gordura quanto na saborosa proibição em alguns países (não por crueldade, mas justamente pelo altíssimo nível de gordura).

Ah, sim! O nome dele é Kakuzui Matsui - muito pouco pronunciável para dar nome à casa, como faz a maioria das supracitadas. Tão singular quanto alguns pratos que pedi sem antes perguntar do que se tratavam. Do Mozuku, uma verdura amarga sem tradução para o português, brota uma água azedinha com acidez tão peculiar que minha mãe há de repensar sua couve para acompanhar a feijoada. A salada de água viva (Kurague Su) é minha promessa para calar a boca de todos meus amigos que não comem "coisas estranhas"... é doce contrapondo amargo, equilibrados com sutileza por acidez e umami. Komotishishamo, dois micropeixinhos que valem duas mordidas cada e, na primeira delas, sem aviso prévio, revelam estar entupidos de ovas. Para a maioria dos pratos, há opção de transformá-los em teishoko (basicamente o PF da casa), o que significa receber sua refeição acompanhada de gohan (o arroz, vindo da Califórnia, é o orgulho do senhor Matsui) e algumas pérolas sortidas em mini-porções (como meu estimado fukuginzuke, que na minha infância a madrinha Eliza preparava em potes). Por fim, meus dois tesouros: Umaki Tamago, uma espécie de omelete de finas camadas enroladas em torno do filé de enguia que, como um diabinho no ouvido, me fez pedir outro; e Butano Kakuni, lombo de porco cozido por sabe-se-lá-quantas-horas até atingir o ponto de maciez cortável por um hashi... vem mergulhado num delicioso caldo fortificado e guarnecido com espinafre e peixe seco ralado em cima. Ponto.
Eu fico com medo de apontá-lo como o melhor restaurante japonês da cidade (afinal, né...). Nem vou me valer dos preços (um jantar dificilmente sairá por mais de 60 reais, com bebida). Mas deixo meu ponto: o Kidoairaku não tem sushi, nem carta de vinhos, trufas ou taças de cristal - muito menos masturbação mental para novo-rico. E deve ser por isso que não está no Michelin. Ponto.











